terça-feira, 22 de maio de 2007

Chá amargo

Ontem assistimos a O último chá do General Yen, do Frank Capra. Eu já gostava do Capra e de suas comédias meigas, como o Galante Mr. Deeds, Aconteceu naquela noite e A felicidade não se compra. Gosto dos diálogos, do modo de filmar, da ironia fina e da delicadeza com que trata de temas morais e da relação entre as pessoas. Acostumada com essas comédias delicadas, estranhei um pouco o clima de O Último chá... O filme se passa em plena guerra civil chinesa. A missionária Megan Davis vai para a China se casar com seu amor de infância, o não menos engajado Dr. Strike. No dia em que ela chega, e em que os dois deveriam se casar, as crianças de um orfanato correm perigo e Megan vai junto com o marido salvá-las. Na confusão, Megan leva uma pancada e desmaia, sendo resgatada pelo General Yen, o frio, sarcástico e impiedoso general Yen, que a leva para sua casa de campo, determinado a conquistá-la. O embate entre Megan e o general representa o embate entre duas culturas diferentes, quase opostas. A tensão é inevitável. Bem diferente do clima ameno das screwball comedies que eu estava acostumada a ver. E o motivo é o fracasso que o filme, lançado em 1933, fez na época. A sociedade se escandalizou com a possibilidade de diálogo e intimidade entre uma moça branca e um oriental. A partir daí, Capra teve que fazer filmes de orçamentos mais modestos e se manter longe dos temas sérios e polêmicos. Não sei se isso é bom ou ruim, já que as comédias são realmente adoráveis, mas talvez a carreira dele tivesse sido outra. De qualquer forma, é um belo filme, muito bem feito. Os clichês das duas culturas funcionam mais como críticas do que como maquiagem; nenhum personagem é totalmente bom ou mau, exceto, talvez, o enfadonho Dr. Strike. Vale uma espiada.

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