quinta-feira, 26 de julho de 2007

Trabalho perdido

Há anos, ambientalistas tentam convencer as pessoas da importância de salvar o planeta. Não só pelo bem da Terra, que tem lá seus bilhões de anos para se recuperar de qualquer desastre maior, mas por bem da própria humanidade, que corre o risco de ser extinta ou de passar a viver maus bocados por conta de fenômenos como aquecimento global e todas as tragédias que podem advir disso. Aí, aos poucos, eles começam a convencer as pessoas, mesmo as que não são ecochatas, que é válido tomar medidas como economizar água, energia, reduzir a quantidade de lixo, reciclar, enfim. E aí, quando, depois de tanto trabalho, finalmente as pessoas começam a captar a mensagem, vem alguém da indústria e pensa: epa, isso vai foder os meus negócios. Vou me unir aos meus colegas e tentar reverter a merda. E aí eles inventam algo genial como a campanha "Embalagem, tá na cara que é bom".

Criada pelo Comitê de Usuários de Embalagem da Associação Brasileira de Embalagem (ABRE), a campanha pretende conscientizar as pessoas da importância da embalagem e de seus benefícios. Afinal, embalagem protege, informa, reduz desperdícios de produtos e até faz inclusão social (!). E eles criaram um site para ajudar a divulgar essa brilhante idéia.

Não é nem que a embalagem não cumpra essas coisas. No mundo de hoje, é realmente impossível eliminá-las. Mas é preciso reduzi-las, é preciso reduzi-las e procurar alternativas, porque cada sacolinha a mais que a gente pega no supermercado consumiu recursos da natureza para ser feita, e cada garrafa de água que a gente compra nos deixa um pouco mais longe de reverter a situação catastrófica que atingimos e mais perto de furacões, ciclones, tsunamis, alagamentos, desertificações. Uma campanha dessas, que quer convencer as pessoas a não reduzir seu uso de embalagens (porque ao final, tudo se reduz a isso: as pessoas vão achar as embalagens ótimas e continuar usando indiscriminadamente ou vão tentar reduzir, usar com consciência), nos deixa mais perto dessas tragédias. Sendo um pouco Poliana, pelo menos tem um lado bom: se o pessoal da ABRE se mobilizou, deve ser porque algum impacto já estão sentindo. Um impacto minúsculo, talvez, mas eles estão preocupados. E isso é bom: significa que a mensagem está chegando e as pessoas começam a se mexer.

Uma entidade de classe, como a ABRE, tem que defender, sim, os direitos de seus membros. Mas não assim. Por que não pensar em alternativas, novas formas de embalagem que não agridam o ambiente? Por que não banir, por iniciativa própria da classe, e não de uma lei - que um dia virá, esperamos -, o isopor, que é tão difícil de reciclar, e substitui-lo por outros materiais? Por que não investir a grana gasta em uma campanha estúpida dessa em pesquisa por novas técnicas? Em campanhas pra ensinar a população a usar melhor as embalagens?
Para o bem deles também, afinal, o consumidor é mais esperto que isso. E não vai cair nessa.

2 comentários:

Ricardo Lombardi disse...

porra, muito bom esse post. Felicitaciones.

Sartief disse...

Muito bom post!

Jean Sartief
http://www.floreseversos.blogspot.com