quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Bela islandesa

Eu sempre odiei Björk. Achava sua voz chata e não me acostumava com as atonalidades. Domingo, no Tim Festival, ela conseguiu inverter esse pensamento. Lindo show, delicado, cheio de cores e luzes e bonitas canções. Ela é linda e carismática e dizia "obrigado" com voz meiga ao fim de todas as músicas. Só uma coisa deixaria o show melhor: ter sido em um teatro ou local menor, fechado. Nitidamente não é show para arena, é pra ver sentado, de perto.
No mais, não esperei para ver Arctic Monkeys e Killers. Ainda bem: acabaram às 5h da matina. Haja desorganização....

terça-feira, 30 de outubro de 2007

A ópera da tropa - parte 2

Impressionante: quanto mais eu penso, mais coisas vejo no Tropa de Elite. E mais coisas vejo no que as pessoas viram em Tropa de Elite. Dá pra analisar o filme como um fenômeno pop, como fez a Bravo! que acabou de chegar às bancas. E dá pra analisar do ponto de vista da jornada do herói, mostrando como o Nascimento é, na verdade, um anti-herói. Segundo o Nasi, que entende mais desses riscados, isso se mostra no treinamento do BOPE: um treinamento deformado gera um herói deformado, um anti-herói, uma distorção. É como a formação do Humbert Humbert, do Lolita. O público torce por Nascimento mesmo discordando de suas práticas, como gosta de um Dirty Harry, de um Charles Bronson, dos mafiosos de O Poderoso Chefão, porque ele é o protagonista, não é raso, tem carisma e dubiedades.
E é essa falta de heróis, esse sistema falido de todo lado, que o filme mostra: de um lado, você tem os corruptos; do outro, um policial que se acha honesto, mas é um torturador. Esse cara não é amigo do morador da favela, como também não é o traficante. O morador da favela tá sozinho: não tem trafica, polícia, ONG ou governo que ajude. E mais: não tem luz no fim do túnel.
O Brasil, meu amigo, só parando e começando de novo.

p.s.: o Lenhart indicou um belo artigo da Jade sobre o filme. Pra quem também estiver nessa pilha...

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Dance, dance, dance...

Sem parar, sem parar.

A ópera da tropa



Como a essa altura todo mundo que participou de discussões acaloradas percebe, Tropa de Elite não é só um filme. É um acontecimento cultural importante, capaz de despertar paixões e ódios igualmente arrebatados, como há muito tempo não se via. Eu, por meu lado, fico do lado das paixões. E, quanto mais eu vejo as críticas ao filme, mais eu acho engraçado. As pessoas se esforçam tanto para achar defeitos que parece, de fato, um recalque. Tem alguma coisa no filme que incomoda essa galerinha que chama o filme de fascista, e é exatamente o óbvio, sem segredos. Ninguém gosta de se ver retratado como otário. E ninguém gosta de pensar na possibilidade de ter alguma ligação com a guerra civil que acontece entre traficantes e polícia.

A maioria das críticas é uma coleção de preciosismos fora de lugar. A narrativa em off é um horror, dizem. Isso, pra mim, é como a história de que usar advérbio e adjetivo para escrever é errado e estilisticamente pobre. Modinha, modinha besta. Teve início claro, fácil de determinar na história da literatura (e do cinema), e um dia vai ter fim. Obra de arte não tem regra. Obra de arte não precisa ser assim ou assado.

As críticas à montagem eu acho difícil considerar, porque são rasas. O filme é tenso, forte, o tempo todo, e isso justamente por causa da montagem. Chega a ser operístico, no sentido da grandiosidade e da força emocional que desperta. Por isso é bom de ver no cinema: as reações das pessoas fazem parte da experiência. E é operístico e teatral porque lida com as questões mais importantes para o homem. É trágico e épico. É a guerra, a pior das condições possíveis, onde as regras são outras. Não é jogo, não é futebol de botão. A vida de verdade, sem Ctrl+Z, em que uma falha pode significar a morte e em que uma atitude traz conseqüências de fato, inelutáveis.

A ficção tem a força dramática que um documentário, por mais bem feito que seja, não permite. E em alguns casos (eu diria que a maioria), isso é mais importante que ter os fatos. Uma imagem vale mais que mil palavras, certo. E uma imagem forte vale mais que depoimentos dados com voz distorcida e capuz na cara. É a verdade sentida na veia, apreendida emocionalmente, não a verdade intelectual. Essa é a grande diferença de Notícias de uma guerra particular, um excelente documentário, para Tropa de Elite. A força das imagens e a gente perceber, de fato, um monte de coisas. Fazer uma série de ligações que o Hélio Luz já fez no Notícias: a guerra no Rio é uma cadeia de acontecimentos, na ponta do qual está o malaco da universidade fumando seu baseado. Não tenho nada contra os malditos baseados. A proibição tem mais de argumentos morais que científicos e financeiros de fato. Em uma situação ideal, tem que legalizar mesmo, e não só a maconha. Só que esse não é mundo em que a gente vive. A gente vive em um mundo onde as crianças entram para o tráfico e morrem no tiroteio.

É idiota pensar que o tráfico substitui o Estado no morro. É idiota pensar que a responsabilidade é só do governo. Não dá mais pra ser assim, desconectado das coisas. Achar que a torneira que eu deixo aberta não influencia, que o saquinho de plástico que eu não reciclo não tem problema. Da mesma maneira, não dá pra achar que o meu baseadinho, e o dvd que eu compro pirata, e o mp3 player que eu compro no coreano da Av. Paulista não tem problema. O tráfico é uma diversificação de negócios. A gente pode escolher fazer parte ou não. Quer fumar? Planta na sua casa. Ah, mas aí não, né? Aí é você que corre o risco de ser preso. Aí deixa de ser divertido.

Essa situação toda justifica a tortura? Não. Da mesma forma que um prisioneiro de guerra tem, em tese, direito de ser protegido, conforme a Convenção de Genebra. Isso é errado, e não pode ser tolerado. Mas acontece. E aí, mermão, se você fizer um filme retratando a polícia e não mostrar isso, não mostrar a corrupção, você não vai conseguir um resultado bom. E o Padilha mostra. Mostra o sistema alimentando o tráfico e a corrupção, e se retroalimentando, de um jeito que remete às próprias origens do país. O policial que vende arma pra traficante é o mesmo que te alivia quando você ultrapassa o limite de velocidade. O mesmo que não te dá multa quando você pára em local proibido. Qual a sociedade prefere? O honesto total ou o corrupto total? Porque o corrupto só quando interessa não é opção.

O Capitão Nascimento é fascista? Talvez. E como um cara desse pode ser um herói? Justamente porque ele não é plano, não é raso. Tem contradições e sentimentos compatíveis com sua função, sua origem, sua história. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo, disse o Charles Bronson. Tem jeitos e jeitos de fazer o trabalho sujo. mas aí é que está: cada um enfrenta o próprio conflito ético. Eu não sou da polícia, não enfrento o conflito de matar ou não um traficante, de torturar ou não. Mas faço parte da juventude otária e classe média. E dos meus conflitos faz parte decidir entre o dvd pirata e a locadora, entre carteirinha de estudante falsa ou não. Não posso mudar a maneira como o país foi colonizado, o sistema de capitanias hereditárias, de jeitinho institucionalizado, mudar a lei. Mas posso parar com a vitimização, porque, como disse uma amiga, se a gente começa com a vitimização, a conversa acaba. E aí a gente pode parar de esperar e começar a fazer a diferença, ainda que milimétrica.

A questão do Tihuana ser trilha sonora eu poderia nem discutir, porque é frase de efeito de fanzineiro. Porém, como usar isso de contra-argumento também seria uma falácia, dá pra parar e pensar que os carinhas do Tihuana são exatamente esses jovenzinhos brancos de classe média que odeiam a polícia. Usá-los na trilha é irônico e mostra o quanto a gente está desconectado do resto, dos processos completos da sociedade. Faz parte da grandeza do filme. Grandeza, porque a obra que é aberta, que toca emocionalmente e intelectualmente, que gera bordões (zero-um! pede pra sair!) consegue instantaneamente se inserir na cultura de um país em uma série de instâncias, da popular à elite, e que não se fecha em uma interpretação, é grande. E quem não percebe isso, com o perdão da referência, é um fanfarrão. Um verdadeiro fanfarrão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O Meme da 161 também chegou aqui

Sim, o tal do meme da página 161 chegou aqui, via Marisa Toma, do Objetos de Desejo. Funciona assim. Quem recebe a convocação, tem que:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Bem, abri o e-mail no trabalho. Como todos sabem (todos! todos!), eu trabalho na revista Crescer, uma revista sobre bebês, gravidez, família... Então, um dos livros que está na minha mesa é: Understanding the mind of your bipolar child: the complete guide to the development, treatment, and parenting of children with bipolar disorder, de um tal Gregory T. Lombardo, M.D., Ph.D.. Ah, confessa que você ficou morrendo de vontade ler, confessa, confessa...

E, bem, a 5ª frase completa da página 161 é:

"Prior to this time, Charlotte had never abused substances, nor did any of her friends."

Bem, que posso dizer? EU acho transtornos mentais um tema realmente envolvente. TDAH, depressão, transtorno bipolar, transtorno de oposição e desafio, síndrome pós-encefalítica, anosognosia... Tenho estudado bastante o cérebro e a mente e endeusado cada vez mais o Oliver Sacks, o Steven Pinker e, minha nova descoberta, António Damásio. Mas entendo que a maioria da humanidade não concordaria comigo.

Pois bem, para o meme seguir seu caminho, mando para os seguintes amados:

- Desculpe a Poeira, do Ricardo Lombardi, a quem devo muitas cervejas;
- Diários da Bicicleta, da Silvana Tavano, colega de editora e autora de belos livros infantis;
- Cansada de Ser Gorda, da Malu Echeverria, ex-colega de revista;
- Exatoacidente, do Tony Monti, escritor e amigo;
- Blog do Fabrício Carpinejar, queridão e poeta.

E assim tudo vai passando... Passe também!