segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A ópera da tropa



Como a essa altura todo mundo que participou de discussões acaloradas percebe, Tropa de Elite não é só um filme. É um acontecimento cultural importante, capaz de despertar paixões e ódios igualmente arrebatados, como há muito tempo não se via. Eu, por meu lado, fico do lado das paixões. E, quanto mais eu vejo as críticas ao filme, mais eu acho engraçado. As pessoas se esforçam tanto para achar defeitos que parece, de fato, um recalque. Tem alguma coisa no filme que incomoda essa galerinha que chama o filme de fascista, e é exatamente o óbvio, sem segredos. Ninguém gosta de se ver retratado como otário. E ninguém gosta de pensar na possibilidade de ter alguma ligação com a guerra civil que acontece entre traficantes e polícia.

A maioria das críticas é uma coleção de preciosismos fora de lugar. A narrativa em off é um horror, dizem. Isso, pra mim, é como a história de que usar advérbio e adjetivo para escrever é errado e estilisticamente pobre. Modinha, modinha besta. Teve início claro, fácil de determinar na história da literatura (e do cinema), e um dia vai ter fim. Obra de arte não tem regra. Obra de arte não precisa ser assim ou assado.

As críticas à montagem eu acho difícil considerar, porque são rasas. O filme é tenso, forte, o tempo todo, e isso justamente por causa da montagem. Chega a ser operístico, no sentido da grandiosidade e da força emocional que desperta. Por isso é bom de ver no cinema: as reações das pessoas fazem parte da experiência. E é operístico e teatral porque lida com as questões mais importantes para o homem. É trágico e épico. É a guerra, a pior das condições possíveis, onde as regras são outras. Não é jogo, não é futebol de botão. A vida de verdade, sem Ctrl+Z, em que uma falha pode significar a morte e em que uma atitude traz conseqüências de fato, inelutáveis.

A ficção tem a força dramática que um documentário, por mais bem feito que seja, não permite. E em alguns casos (eu diria que a maioria), isso é mais importante que ter os fatos. Uma imagem vale mais que mil palavras, certo. E uma imagem forte vale mais que depoimentos dados com voz distorcida e capuz na cara. É a verdade sentida na veia, apreendida emocionalmente, não a verdade intelectual. Essa é a grande diferença de Notícias de uma guerra particular, um excelente documentário, para Tropa de Elite. A força das imagens e a gente perceber, de fato, um monte de coisas. Fazer uma série de ligações que o Hélio Luz já fez no Notícias: a guerra no Rio é uma cadeia de acontecimentos, na ponta do qual está o malaco da universidade fumando seu baseado. Não tenho nada contra os malditos baseados. A proibição tem mais de argumentos morais que científicos e financeiros de fato. Em uma situação ideal, tem que legalizar mesmo, e não só a maconha. Só que esse não é mundo em que a gente vive. A gente vive em um mundo onde as crianças entram para o tráfico e morrem no tiroteio.

É idiota pensar que o tráfico substitui o Estado no morro. É idiota pensar que a responsabilidade é só do governo. Não dá mais pra ser assim, desconectado das coisas. Achar que a torneira que eu deixo aberta não influencia, que o saquinho de plástico que eu não reciclo não tem problema. Da mesma maneira, não dá pra achar que o meu baseadinho, e o dvd que eu compro pirata, e o mp3 player que eu compro no coreano da Av. Paulista não tem problema. O tráfico é uma diversificação de negócios. A gente pode escolher fazer parte ou não. Quer fumar? Planta na sua casa. Ah, mas aí não, né? Aí é você que corre o risco de ser preso. Aí deixa de ser divertido.

Essa situação toda justifica a tortura? Não. Da mesma forma que um prisioneiro de guerra tem, em tese, direito de ser protegido, conforme a Convenção de Genebra. Isso é errado, e não pode ser tolerado. Mas acontece. E aí, mermão, se você fizer um filme retratando a polícia e não mostrar isso, não mostrar a corrupção, você não vai conseguir um resultado bom. E o Padilha mostra. Mostra o sistema alimentando o tráfico e a corrupção, e se retroalimentando, de um jeito que remete às próprias origens do país. O policial que vende arma pra traficante é o mesmo que te alivia quando você ultrapassa o limite de velocidade. O mesmo que não te dá multa quando você pára em local proibido. Qual a sociedade prefere? O honesto total ou o corrupto total? Porque o corrupto só quando interessa não é opção.

O Capitão Nascimento é fascista? Talvez. E como um cara desse pode ser um herói? Justamente porque ele não é plano, não é raso. Tem contradições e sentimentos compatíveis com sua função, sua origem, sua história. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo, disse o Charles Bronson. Tem jeitos e jeitos de fazer o trabalho sujo. mas aí é que está: cada um enfrenta o próprio conflito ético. Eu não sou da polícia, não enfrento o conflito de matar ou não um traficante, de torturar ou não. Mas faço parte da juventude otária e classe média. E dos meus conflitos faz parte decidir entre o dvd pirata e a locadora, entre carteirinha de estudante falsa ou não. Não posso mudar a maneira como o país foi colonizado, o sistema de capitanias hereditárias, de jeitinho institucionalizado, mudar a lei. Mas posso parar com a vitimização, porque, como disse uma amiga, se a gente começa com a vitimização, a conversa acaba. E aí a gente pode parar de esperar e começar a fazer a diferença, ainda que milimétrica.

A questão do Tihuana ser trilha sonora eu poderia nem discutir, porque é frase de efeito de fanzineiro. Porém, como usar isso de contra-argumento também seria uma falácia, dá pra parar e pensar que os carinhas do Tihuana são exatamente esses jovenzinhos brancos de classe média que odeiam a polícia. Usá-los na trilha é irônico e mostra o quanto a gente está desconectado do resto, dos processos completos da sociedade. Faz parte da grandeza do filme. Grandeza, porque a obra que é aberta, que toca emocionalmente e intelectualmente, que gera bordões (zero-um! pede pra sair!) consegue instantaneamente se inserir na cultura de um país em uma série de instâncias, da popular à elite, e que não se fecha em uma interpretação, é grande. E quem não percebe isso, com o perdão da referência, é um fanfarrão. Um verdadeiro fanfarrão.

2 comentários:

Felipe Lenhart disse...

Oi, Jeanne. Lembra de mim? Sou marido da sua amiga Jade. :)
Descobri o link para o seu A ópera da tropa e o Meus Biscoitos no blog do Dauro Veras. A Jade escreveu um artigo sobre o filme, saiu no DC Cultura deste fim de semana. Take a look: http://1cronicapordia.blogspot.com/2007/10/capa-do-dc-cultura-deste-fim-de-semana.html
Beijo

Felipe Lenhart disse...

Ah, vocês combinam um pouco no artigo, hehe